Anais da família Dabney no Faial, vol. I

NOTA INTRODUTÓRIA

Após insistentes apelos de vária proveniência e goradas algumas tentativas de competente tradução, a versão portuguesa do primeiro de um conjunto de três volumes dos Annals of the Dabney Family in Fayal chega, ao fim de quase duas décadas, às mãos de um público interessado que, estamos certos, acolherá esta compilação extraordinária com justificado entusiasmo. Trata-se, na verdade, de um trabalho "monumental" reclamando esforço, perseverança e talento por parte da sua autora, Roxana Lewis Dabney, iniciado na década derradeira da permanência da família no Faial.

A natureza dos materiais de que se socorreu para pôr de pé os Anais daFamília Dabney no Faial, quase exclusivamente constituídos por cartas trocadas entre familiares e amigos, concede a esta obra, do nosso ponto de vista, uma credibilidade que a intenção de circulação dos poucos exemplares conhecidos apenas no seio da família mais reforça.

Roxana Dabney não escreveu história nem terá pretendido organizar um repositório informativo destinado a registar, para benefício das gerações futuras, um quadro caracterizador do fluir da vida faialense e dos factos marcantes que durante décadas foram moldando afeição da ilha que os Dabney escolheram para morada. Roxana apenas terá desejado partilhar o itinerário da família por terras açorianas, indo ao encontro do pedido das sobrinhas que a instaram a meter ombros a tão exigente tarefa, passando a letra impressa, com paciência de infatigável coleccionador, quase um século de experiências e vivências que reflectem relações privadas mas, com copiosa abundância, revelam traços, esboços e quadros riquíssimos dando nota da agitação de uma época fortemente marcada por muitos e variados sucessos.

É inquestionável que a sua extensa compilação constitui preciosa fonte de dados e informações que ajudam a esclarecer o percurso histórico que contextualiza todo o período que a correspondência coleccionada abrange e é notória a sua utilidade para o investigador ou para o simples diletante, surgindo com cristalina clareza a iluminar escritos de cuja credibilidade não se duvida mas que, por vezes, se nos oferecem deforma pouco fundamentada. Claro que o seu âmbito serve outras disciplinas. O etnólogo encontrara nos Anais... matéria para a composição e reconstituição de quadros de vida ancestral hoje mal definidos e o sociólogo aperceberá toda a trama de relações sociais e formas de hierarquização que caracterizam o modo de estar de uma sociedade a um tempo fechada e permeável a influências externas que a frequência do porto facultava. Até o apaixonado pela escrita, desejoso de reconstituir e fixar com fidelidade o ambiente da época que os Anais... desvendam, sentirá como que o respirar das gentes e o recorte das coisas que informam o seu dia-a-dia, desenhando um todo quase pictórico. A propósito deste último aspecto, seja-nos permitido referir que a leitura do Mau Tempo no Canal remete irresistivelmente para estes Anais... mostrando como Nemésio foi capaz de captar e de transpor para o seu genial romance os traços definidores de um tempo que ainda deveria conservar os resquícios da Horta dos Dabney.

O propósito inicial de Roxana era o de perpetuar em edição restrita o rasto indelével deixado pela "família" na ilha do faial, enaltecendo, sobretudo, o espírito empreendedor, o labor e a personalidade de Charles William Dabney. Este filho de John Bass Dabney e herdeiro também do posto consular em representação dos Estados Unidos da América nos Açores, seria a figura central do trabalho empreendido por Roxana - a intelectual do clã - e o seu perfil de homem industrioso e hábil na condução dos negócios da família terá fascinado alguns dos seus descendentes a ponto de lhe solicitarem o desempenho da custosa tarefa de imortalizar a passagem dos Dabney pelos Açores. Aliás, a data extrema que marca o fim da compilação dos Anais... coincide com a data do falecimento do Charles William Dabney na cidade da Horta em 1871. No entanto, a metodologia adoptada por Roxana acabaria por abranger parte do historial da família desde os primórdios da sua génese, com particular destaque para o estabelecimento de John Bass Dabney - o fundador da "colónia" - na vila da Horta no ano de 1806 após breves estadas nos anos anteriores durante os quais terá procedido a cuidada observação das possibilidades das ilhas com vista ao desenvolvimento da sua futura casa comercial. Ainda que se tenha detido no ano de 1871, ficou a intenção de prosseguir a sua tarefa numa segunda parte o que, tanto quanto sabemos, não logrou realizar.

Os Anais da Família Dabney no Faial, no que respeita especificamente à ilha do Faial, compreendendo os limites temporais que podemos situar entre 1806 e 1871, se deixarmos de parte aspectos de natureza genealógica e outros que se referem ao período que antecede a vinda para os Açores, organizam-se em três volumes de idêntica extensão que, no original, totalizam 1.485 páginas. Um primeiro, que agora surge em tradução portuguesa e que tem o seu fecho no ano de 1845; um segundo abre as suas páginas com uma gravura de Charles William Dabney, fechando com acontecimentos do ano de 1862 e, por último, um terceiro volume que percorre os anos que vão até 1871, encerrando o ciclo em que predominou a personalidade do "mais faialense dos Dabney", Charles William.

Roxana, apesar das intenções manifestadas, deixou por tratar o período em que os negócios da família passaram a ser dirigidos pelo 4° cônsul dos Estados Unidos da América nos Açores, Samuel Wyllys Dabney o qual, enfrentando uma acentuada decadência dos negócios, a que não será estranha a presença concorrente dos Bensaúde na Horta, abandonou definitivamente a ilha do Faial em 1892. Refira-se, em abono de Samuel Dabney, para que não fique a ideia de tratar-se de alguém que mais não fez do que liquidar os interesses da Casa Dabney & Sons, que no tempo de seu pai eram já visíveis os sinais de crise. A consolidação dos interesses dos Bensaúde em áreas coincidentes com as que os Dabney exploravam - agenciamento de navios e fornecimento de carvão - e, depois, a antecipação das obras do molhe de Ponta Delgada em 1862, estarão na origem do declínio da actividade da família e da própria baía da Horta que só verá o início da construção da sua doca no ano de 1876, altura em que era já preponderante o papel da doca micaelense.

Muito para além das intenções de exaltação familiar de Roxana Dabney, é reconhecível no conteúdo das peças do imenso epistolário que foi justapondo um alcance que ultrapassa o mero registo do quotidiano faialense ao longo de três quartos de século. Resulta indispensável, por isso, uma tentativa de contextualização histórica relativa ao período que a obra abarca, faremos notar que o "amadurecimento" da terra faialense nestas décadas, numa travessia em que a realidade insular mergulha num tempo conturbado e cheio de significado de um ponto de vista político com largas repercussões na sociedade e na economia, ilustra uma época histórica de enormes transformações cuja leitura tem, não só um interesse local e nacional, mas uma dimensão atlântica.

A este propósito, João Dias Afonso, em competente e detalhada recensão dos Anais..., propõe mesmo uma tese que nos remete para a existência de uma estratégia familiar de contornos geográficos de abrangência transatlântica, ligando ilhas e continentes que nesta época, de forma mais ou menos episódica, conheceram a presença de um membro da numerosa prole nascida das várias gerações Dabney que em todos os quadrantes da extensão imensa do Atlântico buscaram oportunidades e riqueza.

Importa referir que a extensão à ilha do Pico dos interesses da família, para onde se deslocavam na época estival, alarga o interesse do conteúdo informativo dos Anais... conferindo a esta obra valia acrescida pela riqueza da informação que revela sobre a "comunidade do canal", para usar feliz expressão de Tomaz Duarte Jr. John Bass Dabney - ele mesmo protagonista e vítima dos tempos conturbados da aventura napoleónica que precede a sua fixação na Horta - estabelece-se na ilha do Faial numa época que podemos, sem hesitação, considerar como um tempo de construção de um novo quadro histórico determinado pelas alterações sociais e políticas resultantes, não só do confronto entre a Grã-Bretanha e a França mas do forte impacto que o conflito exerce na monarquia portuguesa culminando com a fuga da família real para o Brasil em Novembro de 1807 e, mais tarde com a própria independência da colónia em 1822. Tudo isto define uma conjuntura a que o arquipélago não permanece alheio e a que outros episódios se juntam - como são os que resultam da intensificação do corso dos chamados "insurgentes" de Buenos Aires - adensando um quadro complexo cujo impacto se faz sentir nos Açores. Uma vez mais, por via da excelência da sua posição geoestratégica, as ilhas açorianas, e o Faial de modo particular, vão assegurar papel de relevância assinalável no jogo da diplomacia e dos interesses internacionais. O estatuto consular que lhe foi outorgado pelo governo dos Estados Unidos da América e a posição dominante que, deforma quase meteórica, assume no mundo dos negócios à escala do Atlântico, justificam o interesse pela observação das suas intervenções na medida em que o historial da sua personalidade permite aperceber, também, alguns traços caracterizadores da época em que a sua acção se desenvolve. O conhecimento que temos da mal sucedida experiência de negócios intentada por John Bass Dabney em França nos anos derradeiros do século XVIII, onde se fixou com a família, leva-nos a supor que o encontro com o Faial terá sido fortuito - independentemente do conhecimento obtido da morte de um parente em naufrágio nos mares açorianos - resultando das suas travessias oceânicas com escala na ilha do Faial. Pretendemos com isto manifestar alguma dúvida quanto à ideia de uma fixação no Faial como forma de corresponder a desígnios estratégicos do governo americano, embora se conheça o seu desejo em dispor de uma posição avançada a meio do oceano nas ilhas dos Açores. A própria correspondência do primeiro cônsul dos Estados Unidos da América (primazia nem sempre aceite por se admitir que Street de Arriaga, cônsul americano na Horta, o fosse para todo o arquipélago e desde data mais recuada em relação à da chegada de John Bass Dabney) denuncia uma avaliação cautelosa de opções de fixação em função do interesse potencial do comércio que poderia desenvolver, parecendo indiciar uma decisão pessoal determinada por factores alheios a qualquer manobra diplomática.

Os anos de vida do patriarca da família não terminariam sem que testemunhasse a agitação das primeiras convulsões que sucederam ao pronunciamento liberal de 24 de Agosto de 1820. O ocaso da sua existência em 1826 coincide com o desaparecimento de D. João VI e com a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro.

Com Charles William Dabney, sem dúvida o mais ousado e avisado na condução dos negócios, a firma - futura Casa Dabney & Sons - terá alcançado a maior projecção à escala internacional do que resultou para a família um prestígio social sem paralelo na ilha e, mesmo, no arquipélago. Ao estatuto consular da florescente jovem república americana associavam a prestação de serviços à navegação que cruzava o Atlântico de par com o comércio do vinho da ilha vizinha do Pico e a baldeação de cascos de azeite de baleia que os esbeltos navios baleeiros da frota yankee transportavam para a baía da Horta. Armaram navios para o transporte de carga e passageiros e com o seu arrojo a "baleação" a partir de estações localizadas em pequenos portos das ilhas recebeu o primeiro impulso. Neste percurso que fez a sua riqueza, deram abrigo a náufragos e acolheram viajantes, prodigalizando a mais cavalheiresca hospitalidade a príncipes e notáveis. Os seus jardins e o desafogo das suas mansões ilustraram relatos de homens de ciência e de jornalistas em páginas de literatura científica e em obras várias que hoje formam o assinalável acervo da literatura de viagens que tem os Açores como tema central.

Com persistente empenho, foram os mais eficazes promotores do Faial e da sua divulgação como local aprazível e dotado de condições de excelência, tanto para o simples viajante em busca de lazer, como para a navegação transatlântica.

No ciclo do tempo que a sua presença preenche, Charles William Dabney viu a Horta ser vila e cidade; iluminar-se e crescer no seu traçado; sob o seu patrocínio os salões faialenses fervilharam de animação e a sociedade hortense tornou-se mais informada e mais culta; o seu dinamismo fez da Horta o mais importante porto carvoeiro a meio do oceano, fazendo da sua casa comercial protagonista activo da mais importante mudança tecnológica a revolucionar a navegação de longo curso com a introdução do vapor. Sob o seu olhar, talvez repassado de frustração, nasceu e enraizou o molhe da doca por que tanto pugnou décadas antes.

Também sob o seu olhar atento - e sabe-se lá em que medida foi cúmplice ou interferiu no curso dos acontecimentos - passaram os anos conturbados e incertos da aventura liberal portuguesa, acolhendo na sua residência D. Pedro e a oficialidade que nos Açores preparou a expedição que em 1834 deu a vitória à causa de D. Maria.

Enquanto jovem yankee, postado num qualquer logradouro do burgo hortense, ter-se-á empolgado com o heróico episódio do brigue americano General Armstrong e não foi de modo neutro que viveu os anos da guerra entre o Norte e as tropas sulistas na América, sendo provável que a Horta de então se tenha revelado útil, por via da sua presença e estatuto consular, como escala de informação, nomeadamente na perseguição movida pelo Kearsarge ao célebre corsário Alabama.

Enfim, o pulsar turbulento do Atlântico, também em tudo o que implicava engenho e criatividade, teve nos Dabney os interlocutores diligentes, fazendo do Faial uma terra de vanguarda e um entreposto indispensável à eficaz ligação das margens deste oceano, cobrindo todas as direcções. É sobre este mundo fascinante e dinâmico que falam, a várias vozes, as gentes que povoam as páginas dos Anais da Família Dabney no Faial.

A metodologia de que Roxana Dabney se serviu para construir os seus anais, largamente baseada no conteúdo do acervo epístolográfico que a família acumulou zelosamente ao longo de décadas, longe de ser mero relato narrativo de factos e acontecimentos cujo teor poderia cingir-se, especificamente, à família, acaba por revelar, em minúcias de reportagem, todo o desenrolar do dia-a-dia das ilhas sem perder de vista o seu enquadramento e o comentário judicioso que ilumina e esclarece comportamentos e actuações. Os Anais da Família Dabney no Faial são como que o "diário de bordo" de uma ilha mergulhada na urdidura complexa que tem no Atlântico o seu pano de fundo e a que não permanece alheia. Ainda que marginal em relação aos conflitos que, forçadamente, tem de testemunhar, o arquipélago marca o seu próprio ritmo embora preso às exigências inelutáveis que a soberania da coroa e os interesses internacionais impõem.

Temática que só recentemente começou a ser estudada de forma mais sistemática, tem nos Anais..., nas páginas que cobrem as duas primeiras décadas do século XIX, dados de relevante interesse que em muito ultrapassam a intimidade dos assuntos que a troca de cartas entre familiares justificaria. Aliás, é este, porventura, o facto mais notável que importa realçar quanto à riqueza informativa das centenas de peças de correspondência que familiares e amigos fizeram navegar em todas as direcções do oceano, com origem ou destino nesta verdadeira capital atlântica dos interesses dos Dabney que no início do século XIX decidiram ancorar na ilha do Faial e que a sua presença tornou, também, em sede do consulado dos Estados Unidos da América do Norte nos Açores.

Estamos, naturalmente, em presença de uma obra desigual do ponto de vista do interesse do seu conteúdo. Todavia, as séries de correspondência que poderão revelar-se menos apelativas para alguns leitores, como serão as que os familiares de Boston enviam para a Horta, só numa avaliação superficial poderão reputar-se de desinteressantes. De facto, é também por estas trocas epistolares mais alheias aos temas de conteúdo estritamente insular que se apercebe, com maior amplitude, o pulsar do Atlântico e os seus ritmos, entretecendo o pano de fundo da realidade mais vasta em que os Açores se acham mergulhados.

Neste modesto registo de abertura, em jeito de quem quer ser prestável no franquear das portas que acedem aos capítulos que farão as delícias de curiosos e estudiosos da realidade açoriana do século XIX, surge como imperativo de justiça enaltecer a inspirada notícia trazida dos Estados Unidos da América pelo distinto investigador, e académico açoriano, o Comendador João Dias Afonso, dando conta da existência das raras cópias existentes "para circulação privada", formulando apelo a que o Doutor José Guilherme Reis Leite, então Secretário Regional da Educação e Cultura, soube dar pronto acolhimento, do que resultou uma permuta com o Museu da Baleia de New Bedford cuja contrapartida em favor do arquipélago foi a oferta de uma cópia dos Annals of the Dabney Family in Fayal. Ao esforço clarividente e empenhado dos dois se deve estarmos hoje perante um verdadeiro tesouro bibliográfico cuja utilidade pode bem emparelhar com as obras emblemáticas da nossa historiografia oitocentista. Estamos, de facto, perante o que de mais importante é possível compulsar na busca de informação relevante para qualquer abordagem sobre a sociedade açoriana de Oitocentos nas suas íntimas ligações com o mundo Atlântico de então.

Numa perspectiva da construção do acervo documental que ao arquipélago respeita, esta edição constitui um marco de notável relevância. Sendo certo que a versão original - muito pouco utilizada - podia já ser consultada nas bibliotecas de Angra, Horta e Ponta Delgada, a disponibilização da tradução portuguesa tem de saudar-se com o mais vivo regozijo e como acontecimento de projecção excepcional na vida cultural do arquipélago dos Açores.

Ao Instituto Açoriano de Cultura e ao Núcleo Cultural da Horta, que abraçaram responsavelmente este projecto, o património documental dos Açores fica devedor de uma importante iniciativa que credibiliza estas instituições e as torna merecedoras do maior apreço.

Ricardo Manuel Madruga da Costa