Instituto Açoriano de Cultura
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Leonel Moura
Exposição
 

Palácio dos Capitães Generais, Angra do Heroísmo
17 de Março a 21 de Abril

251004
Tinta sobre tela
100x100 cm

Os robots pintores foram concebidos para pintar. Não as minha pinturas, mas as deles.

Um tal objectivo pode parecer simples mas na verdade põe em questão muitas das ideias correntes sobre a arte, robótica e inteligência artificial. Comecemos pela inteligência.

Hoje vemos a inteligência como um simples mecanismo de feedback. Se um sistema, qualquer sistema, for capaz de responder a certos estímulos em si ou no ambiente, então podemos afirmar que alguma forma de inteligência está presente. A inteligência per se é algo que não necessita de se referir a nenhum tipo de propósito, objectivo ou quantificação. Pode simplesmente ser um mecanismo interactivo de qualquer tipo, sem nenhum outro objectivo senão processar informação e reagir de acordo com as suas capacidades disponíveis. Contudo isto não é o que habitualmente observamos nas pesquisas de inteligência artificial. Desde logo porque a inteligência humana continua a ser o “grande” modelo de referência e aquele que serve de base à avaliação da maioria das experiências. A inteligência artificial é por isso em geral uma simulação daquilo que pensamos ser a mente e comportamento humanos.

Pelo contrário os robots pintores foram construídos sem nenhum modelo de inteligência prévio, humano ou outro. A ideia foi criar um organismo artificial capaz de fazer pinturas sem nenhuma referência externa ou requisitos pré-determinados. É por isso que não usamos parâmetros de fitness ou de optimização. São simples mecanismos de feedback e de stigmergia que operam.

Um tal projecto não pode ser avaliado com base em nenhum tipo de aptidão humana ou comportamento natural. Os robots pintores são uma espécie singular, com uma particular forma de inteligência e uma vida própria. Fazem pinturas, tal como outros constroem ninhos, alteram habitats ou criam relações humanas.

Enquanto robots, isto é máquinas autónomas e inteligentes, são também distintos. A intenção não é a de simular um qualquer comportamento animal ou qualquer tipo de reconhecido processo corporizado. Todas as partes de que são feitos e tudo aquilo que são capazes de fazer derivam do simples propósito de realizarem as suas próprias pinturas. É por isso que têm sensores visuais para reconhecer cores, rodas para se moverem, um cérebro para processar informação e um dispositivo de canetas para pintar. Mesmo os aspectos decorativos foram reduzidos ao mínimo.

Os robots pintores foram especificamente criados como uma nova forma de vida dedicada à produção de pinturas. Nem mais, nem menos.

Se os robots apreciassem arte certamente as pinturas dos robots pintores seriam as que mais gostariam. Pois elas são a expressão autêntica de máquinas inteligentes. Mas porque nós humanos continuamos para já a ser os únicos observadores reflexivos, a relação entre a arte produzida por máquinas e a nossa percepção tem bastante interesse.

Julgo que temos muita facilidade em compreender profundamente estas pinturas. A complexidade é fácil de explicar, mas menos fácil de apreender quando a vemos em acção. De qualquer forma gostamos delas, talvez porque temos algum fascínio por estruturas fractais e caóticas. Mas mais do que formas e cores aquilo que alguns de nós realmente aprecia aqui é a ideias e o processo associado. Neste sentido as pinturas robóticas são uma arte conceptual e provocativa que questiona as fronteiras da arte tal qual a conhecemos.

Na minha experiência com estes robots geralmente forneço uma tela branca e uma escolha aleatória de cores. Algumas vezes coloco uma tela onde previamente foi pintada uma imagem , uma semente portanto, que os robots tomam como estímulo sobre o qual sobrepõem a sua própria composição. Esta acção, quando vista pela perspectiva da visão humana, aparece como uma correcção ou comentário sobre a imagem, ainda que os robots nunca a tenham apreendido na sua totalidade e só reajam a informação local. A nossa interpretação da pintura final é por isso afectada pelo comum mecanismo gestalt, mas ainda mais por aspectos morais, políticos ou estéticos que na verdade não fazem de todo arte do processo. É neste sentido que considero estas pinturas como uma metáfora excelente da nossa intrínseca dificuldade em compreender o comportamento de máquinas inteligentes ou aliás de qualquer tipo de informação que não derive dos nossos próprios modelos cognitivos.

Na série em que utilizei como semente Marilyn de Warthol esta questão é bastante evidente. Os robots reagem simplesmente a um ambiente caracterizado por contrastes bastante bem definidos. Daí tendem a pintar nas áreas mais gráficas, ou seja, boca e olhos. O que resulta numa profanação do retrato, uma espécie de manifestação iconoclasta que evoca a visão aterradora de um mundo dominado por máquinas destruidoras.

Em conclusão. Não me interessa criar robots domesticados (e o facto do robot mais conhecido actualmente ser um cão não é pura coincidência…), mas pelo contrário quero continuar a tentar criar máquinas inteligentes e autónomas dedicadas à sua própria vida e arte. Da mesma forma que não vejo as pinturas em série da Semente Marilyn como um manifesto destruidor, mas pelo contrário como uma nova forma de arte ou seja que assinala o fim da arte ou seja tal como a conhecemos e a abertura de um vasto campo para novas práticas artísticas. Humanas e não-humanas.

Leonel Moura é um artista cuja arte se combina com a arquitectura, a filosofia e a ciência. É co-autor de Man and Robots, 2004. www.lxxl.pt

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Última actualização em 2006-05-30